O objetivo maior do Yoga desde sua criação é a evolução espiritual do nosso ser, entretanto, a sua prática também propicia benefícios diretos aos nossos corpos e mentes, atuando como uma terapia extremamente eficaz.
Atualmente, o Yoga vem sendo utilizado eficientemente no tratamento de doenças, como: asma, diabetes, artrite, desordens do aparelho digestivo, entre outras. Pesquisas sobre os efeitos da prática de Yoga com portadores de HIV vêm sendo realizadas com resultados promissores.
Segundo médicos e cientistas, o sucesso do Yoga nos dias de hoje se deve ao equilíbrio criado nos sistemas nervoso e endócrino, que influenciam diretamente em outros sistemas e órgãos de nosso corpo.
Abaixo estão os principais benefícios provenientes da prática tradicional de Yoga.
O Ashtanga Vinyasa Yoga é caracterizado por seqüências de posturas (são 6 séries no total), em que todo movimento é feito coordenado com a respiração (vinyasa).
Durante a prática, respeitando o ritmo individual de cada pessoa, devem-se manter presentes os três elementos importantes do Ashtanga, que são: ujjayi pranayama (respiração profunda e sussurrante, que se faz contraindo a glote); bandha - uddiyana, mula e jalandhara bandha (fechos, ou contrações, do baixo ventre, períneo e garganta) e drishti (focos oculares).
A primeira série do Ashtanga Vinyasa Yoga tem o nome de yoga chikitsa, que significa yoga terapia. Trata-se de uma seqüência de asanas (posturas) que focam o alongamento, mobilidade, força e abertura do corpo, a qual conduz ao autoconhecimento e estado meditativo. Outro efeito importante é a purificação e desintoxicação do corpo físico e sutil. Para se obter tais benefícios, o aluno deve sustentar as três ações mencionadas acima, aliadas à prática constante e fluida, assim, naturalmente o corpo se aquece, gerando o suor.
Com “tapas”, como é chamado o calor produzido através do esforço diário dedicado à prática, o corpo aos pouco se purifica, devido à queima e eliminação de toxinas. Ocorre que, ao se manter o calor corporal durante toda a prática de posturas, o sangue também tem a temperatura elevada, fazendo com que este fique menos denso, livre de impurezas, as quais são eliminadas, dentre outras formas, através do suor (por isso o motivo de não nos secarmos, somente o espalhamos na pele).
É importante salientar que, ao ser mantido o calor corporal, a respiração não deve ser alterada, fica na mesma cadência, do início ao fim da prática, regulando também, dessa forma, os batimentos cardíacos e o ritmo do praticante.
Texto: Rosangela Castellari
O Yoga é o caminho da purificação e da transformação. Isso significa que podemos esperar por muitas mudanças físicas, mentais e emocionais no decorrer de nossa prática.
Geralmente, todo tipo de movimento de transição em nossa prática vai dos aspectos mais grosseiros de nós mesmos aos mais sutis. O significado disso é que tendemos a passar mais por mudanças físicas inicialmente e, com o passar do tempo, iremos experimentar mudanças mais sutis em nossos estados mental e emocional.
Yoga é um processo no qual nos empenhamos em despertar e trazer à tona as partes mais essenciais de nosso Self. Ao utilizar a palavra “essenciais”, eu me refiro àquelas partes de nosso Self que são transcendentes e que não mudam com o passar do tempo.
Quanto mais nos distanciamos do que é natural ou essencial em nosso Self, mais elementos “extras” carregamos conosco em nossas vidas. Comemos mais do que precisamos, possuímos mais bens do que é preciso, falamos mais do que o necessário e por aí vai. Não é tanto o fato de vivermos com esses elementos extras, mas o apego e a identificação que criamos com essas coisas que são nocivos e causam sofrimento. Quanto mais forte o apego e a identificação com tais elementos extras, mais estaremos propensos a esquecer nosso Self essencial. Ter uma consciência dos aspectos essenciais do Self é, de muitas maneiras, a essência do que é a prática de Yoga.
Então, quando embarcamos no caminho do Yoga, nós começamos a praticar e viver nossas vidas de tal maneira que começamos a nos livrar desses “extras”.
O que você pode esperar inicialmente é que seu corpo vai começar a passar por algumas mudanças muito fortes e por vezes dramáticas, especialmente nos primeiros 6 meses de prática diária dedicada e intensa. Você vai começar a desenvolver o que se conhece por “tapas”, ou calor na sua prática, no seu corpo. Isso irá resultar em transpiração abundante (claro que em algumas pessoas mais do que em outras). Para alguns, o corpo exalará odores bastante fortes. A pele de muitas pessoas passa por mudanças. Podem aparecer acnes, brotoejas e afins. Em casos mais extremos, algumas pessoas podem desenvolver grandes bolhas.
Outros sintomas diversos de purificação começarão a aparecer para a maioria dos praticantes. É bastante comum aumentar a ocorrência de gripes, resfriados e febres, assim como dores-de-cabeça, sonolência e tontura. É importante aceitar e respeitar essas mudanças – elas podem ser bastante profundas no seu sistema. A minha recomendação é que você tire um tempo extra para descansar e permanecer quieto. Você pode também ficar atento à tendência de ficar sempre ocupado e começar a reduzir o número de atividades do dia.
Naturalmente, pelo fato da prática de asana ser tão rigorosa, você pode esperar por mudanças drásticas tanto no seu físico como na saúde geral de seu corpo. Você vai ficar significativamente mais forte de uma maneira bastante equilibrada e integrada. Especialmente a força “central” do seu corpo vai aumentar. O “central” aqui refere-se à área do baixo tronco e regiões pélvicas. Foi demonstrado que força nessas regiões traz um dramático aumento na função de equilíbrio, suavidade de movimento e rapidez dos reflexos. É senso comum que o desempenho atlético pode melhorar significativamente pelo desenvolvimento da força “central”. A flexibilidade de todas as áreas de seu corpo tenderá a aumentar dramaticamente.
Outro setor que melhora e que é freqüentemente esquecido é o aumento da funcionalidade do sistema gastrintestinal. A freqüência de flexões para frente na prática de asana limpa e recondiciona profundamente os órgãos digestivos. A maioria das pessoas na nossa cultura e sociedade modernas tem algum grau de distúrbio digestivo ou intestinal devido a dietas não saudáveis e estresse. Constipação e gases em excesso acabam por se tornar a norma para a maioria das pessoas. Uma notícia afirmou que muitas pessoas carregam até 20-30 quilos de fezes não digeridas em seus corpos o tempo todo! Um sistema gastrintestinal funcionando bem é vital para o adequado funcionamento do nosso sistema imunológico e do equilíbrio hormonal. Tanto a saúde física como a mental são dramaticamente afetadas pela condição dos nossos sistemas digestivos.
Assim, umas das áreas onde podemos focar à medida que mergulhamos mais profundamente em nossas práticas é o maior nível de consciência e cuidado com o quê, quando e como colocamos comida em nossos corpos. Irei falar mais elaboradamente desse assunto em outro momento.
Então, quando você começar a tornar-se mais saudável e mais em harmonia fisicamente, vai notar que a sensibilidade dos seus sentidos irá aumentar e aguçar. Os sentidos de olfato, visão e audição vão ficar mais afiados e claros. Você vai sentir mudanças de temperatura e pressão em diferentes partes de seu corpo como nunca sentiu antes. Muitas pessoas declaram ter um aumento na sensibilidade e profundidade no paladar. Aquilo que era saboroso anteriormente se torna salgado, amargo, picante ou doce demais. Você vai se ver começando a sentir necessidade de comidas que têm sabores mais sutis ou mesmo mais simples.
O processo de purificação começará a afetar você mentalmente, emocionalmente e fisicamente. Geralmente, desequilíbrios crônicos se tornam mais agudos antes que qualquer processo de cura profunda aconteça. Você vai notar que seus pensamentos e emoções se tornarão mais intensos e algumas vezes frenéticos, causando períodos de grande desconforto. Mau humor e acessos de irritação e impaciência são comuns durante esse período. Apesar de algumas vezes parecer que você vai ficar louco, essa etapa do processo é importante e necessária. Então não se preocupe muito com isso. Também é comum ter sonhos intensos e imaginação bastante colorida.
O resultado desse tipo de purificação mental, emocional e física é que você vai se notar cada vez mais sensível e alerta com relação ao seu próprio estado mental, assim como ao estado e energia das pessoas e ambientes à sua volta. Muitas pessoas reportam um aumento na ocorrência de experiências psíquicas (ler a mente de outras pessoas, antecipar eventos que não tinham relação, assim como um aumento na ocorrência de sincronicidade). Resumindo, você vai ficar mais sensível à “energia” das pessoas, lugares e coisas. Você vai ficar mais sensível àqueles aspectos da nossa realidade que permanecem escondidos ou não vistos pela maioria das pessoas. Ao longo do tempo, isso não vai parecer tão incomum para você. O que é mais estranho é como a maioria de nós pode ser tão cega e inconsciente para aspectos tão básicos de nossa existência por tanto tempo.
Mais uma vez, ao passar por esse processo, esteja certo de ter bastante respeito e aceitar as mudanças sutis e mesmo as não tão sutis que forem ocorrendo. Esse caminho do Yoga, esse caminho de purificação, é muito, muito poderoso. Você vai despertar grandes reservas de energia, vitalidade e poder interiores que você talvez nunca soubesse que tinha. Sempre que você desperta ou entra em contato com esses tipos de energias, é importante se dar conta que quanto maior o poder, maior deve ser a responsabilidade. Pela sua natureza, o propósito desse poder não é a satisfação dos seus desejos egoísticos. Na verdade, fazer isso é insensato e perigoso em muitos aspectos. Reflita profundamente e cautelosamente sobre esse processo e cuide-se bem.
Hari Om!
Govinda Kai
Texto: Govinda Kai - www.flickr.com/photos/govindakai/
Tradução: Fábio Sayão
Fonte: www.ashtanganews.com
A abordagem da história do Yoga é uma tarefa muito difícil, pois para tratar de registros históricos, obrigatoriamente fala-se em datas, o que não temos com muita precisão, pois muito da história se confunde com os mitos do hinduísmo e crenças indianas. Entretanto, são designados três períodos históricos importantes: pré-clássico, clássico e pós-clássico, os quais serão discorridos adiante.
A filosofia do yoga muito se parece com o Samkhya, que é o mais antigo darshana da tradição indiana. Ambas foram desenvolvidas no período pré-clássico, e têm uma visão dualista, vêem o mundo como real e existente, e ele é dessa forma por causa da ignorância humana, a verdadeira natureza do espírito. A filosofia Samkhya reconhece a existência de Purusha, o Ser ou Self, separado de Prakriti, ou seja, a Natureza; afirma que Purusha é imutável e que Prakriti está em eterna mutação; e acredita que não há um Criador.
Com essa breve explicação da visão Samkhya-Yoga, conclui-se que a finalidade suprema da vida é a busca pela verdade, o conhecimento da essência do espírito, com a conseqüente aniquilação da ignorância, para cessação dos ciclos de nascimento e morte, e para obter por fim a libertação.
Diferentemente dessa visão dualista, e anteriormente a existência dela, durante a civilização Indo-Sarasvati, surgiu o Vedanta, por meio do Rig-Veda e posteriormente aos Upanishads. O Vedanta embasa a tradição hindu, possui uma visão não dualista da realidade, baseada nos Vedas. Os Vedas, que significa aquilo que foi visto, são palavras sagradas, que desvendam a parte espiritual do homem, e possui todas as formas de pensamentos que deram base a Índia, ao Hinduísmo, ao Brahmanismo e ao Yoga.
O Rig-Veda se refere bastante ao Yoga, tratando por ex. sobre chakras, meditação e kundalini. Característica desde os tempos védicos, a prática de tapas, o sacrifício, que também é mencionada, é muito poderosa e importante, e era feita através do soma e da retenção da respiração (pranayama). É ainda usada atualmente por todo o povo indiano e na prática do Yoga. Diferentemente deste método, a partir das Upanishads (1900 a.C.), que tem como significado a derrota da ignorância através da revelação do conhecimento do Supremo, a contemplação começou a ser utilizada visando a busca do absoluto, tal como a prática de meditação do Yoga. A partir daí, iniciou-se a descoberta de atman e brahman. Este último vem da raiz brih, que significa expandir-se, e denomina-se o imperecível, o imutável, o princípio de toda existência.
As Upanishads embasaram o Samkhya e o Vedanta. A partir delas, o Yoga começa a ter uma conotação mais técnica. A terminologia Yoga encontra-se pela primeira vez na Taittiriya Upanishad e na Katha Upanishad, porém, a prática de yoga está nas Upanishads mais antigas, quando se referem à prática de pranayama ou também de pratyahara, através de uma linguagem metafórica, com muitos simbolismos. É dito que, o homem que é perfeitamente senhor de si é comparável a um hábil cocheiro, que sabe dominar seus sentidos, ou seja, aquele que tem o conhecimento conquista a liberação. Estas Upanishads não revelam detalhes sobre as técnicas yoguicas, mas as descrevem perfeitamente, dizendo que “o Yoga vem e vai”.
Asana, pranayama e pratyahara, as mais importantes anga (partes) dos Yoga Sutras, são mencionadas nas Upanishads, bem como o mantra OM.
Dentre as Upanishads Yóguicas estão: Yogatattva, Dhyanabindu e Nadabindu. A Yogatattva possui as práticas yóguicas, e menciona os oito angas e as quatro espécies de Yoga. Pela primeira vez, uma Upanishad menciona sobre os poderes extraordinários decorrentes da prática e da meditação. Já a Dhyanabindu mostra uma característica mágica e anti-devocional, tal como o tantrismo extremista.
Esta época (Idade Média indiana) é considerada a era épica, pois nela surgiram os dois grandes poemas épicos indianos, que acrescentam bastante na história da religião e filosofia da Índia: o Ramayana e o Mahabharata, épico que inclui o Bhagavad Gita. Um dos principais motivos para a aparição do hinduísmo foi a necessidade da população focar em uma religião, ter uma devoção, quando se tornaram populares as imagens de Shiva, Krishna ou Vishnu, o que foi um choque para a cultura vedantina, que via o Yoga como um meio para obter poderes mágicos.
Shiva é a divindade dos yoguis, simbolizado de várias formas, tem o aspecto destrutivo do universo ou transformador, fazendo parte da famosa trindade, junto de Vishnu e Brahma. O mundo é uma interação entre Shiva e Shakti, Consciência e Energia. Vishnu também foi mencionado já no Rig-Veda, encarnou várias vezes, de diversas formas, representando o preservador. E Brahma representa o Criador do mundo.
O Ramayana influenciou muito a vida espiritual dos indianos. Tratando sobre a vida de Rama, foi denominada como a primeira obra poética, não abordando o Yoga, mas sim os valores morais, tal como os yamas e nyamas. Rama, encarnação de Vishnu, de acordo com a obra, é a personificação da renúncia, da equanimidade e do autocontrole. Sita, sua esposa, é o princípio da pureza feminina e da fidelidade conjugal. Segundo a tradição hindu, Rama viveu antes de Krishna, mestre de Arjuna na grande batalha.
Já o Yoga tem uma colocação muito importante no Mahabharata, grande epopéia da Índia, principalmente no Bhagavad Gita. O livro VII, o Mokshadharma, se refere ao Yoga e ao Samkhya, e não os difere, pois são dois caminhos de conhecimento complementares. Há a alusão constante ao Yoga da ação, o que nos remete à idéia de karma, ao falar-se em renúncia, e também ao dharma, tratando sobre a moral superior, bem como sobre Jñana Yoga e Bhakti Yoga. No Bhagavad Gita os principais elementos do Yoga são mencionados, mostrando que a prática deve estar no dia-a-dia do buscador, sempre presente, e que tudo é manifestação de Deus.
No início da Era Cristã, já no período Clássico, com bastante influência do Budismo, o Yoga foi codificado no Yoga Sutra, por Patañjali, que compilou um conhecimento anterior a ele, passado de pessoa por pessoa, mestre a discípulo, por um método de transmissão oral conhecido por parámpará. Entretanto, ele não foi o criador do Yoga. Segundo a tradição, o criador foi Hiranyagarbha, que significa o embrião da criação, que não é uma pessoa, é uma força cósmica primordial, a qual desvenda o processo espiritual.
Não se sabe muito sobre a figura de Patañjali, o que ainda é um mistério. De acordo com a história, seria ele encarnação de Ádisesha, representado pela forma de nága, um ser metade homem, metade serpente, com quatro braços que seguram os atributos de Vishnu: a concha e o disco, e fazem o gesto da oferenda, añjali mudrá, abençoando todos que buscam a verdade do Yoga.
O Yoga Sutra é conhecido por Ashtanga Yoga (ashta – oito, anga – partes/membros), o qual define os elementos mais importantes do Yoga para o homem alcançar a iluminação. Tem por objetivo promover condições mentais indispensáveis para que a consciência (chitta) cesse (nirodha) todos os seus movimentos (vrittis), os quais impedem Purusha de alcançar sua verdadeira natureza (1.2).
Os 195, ou 196, aforismos do Yoga Sutra estão distribuídos em quatro capítulos, chamados pada (caminhos):
O objetivo do Yoga é transformar o ser humano para alcançar a liberdade absoluta, chamada moksha, unindo corpo, consciência e o ser, a fim de obter o samadhi. Para atingir esse objetivo, o Yoga Sutra de Patañjali possui todas as soluções para aplicação em nosso cotidiano e no planeta que vivemos.
Atha yogánushásanam é o aforismo que inicia o primeiro capítulo dos Yoga Sutras, que indica: “Agora, começa o Yoga”. Essa frase indica que devemos sempre estar atentos e conscientes, em todos os momentos da vida, pois, como já aludido anteriormente, o Yoga vem e vai. Assim, fica clara a importância da aplicação dos ensinamentos do Yoga no cotidiano.
O segundo aforismo, Yogaschittavrttinirodhah, já citado acima, dá um significado ao Yoga, apontando que ele ocorre com a cessação, ou interrupção, das ondulações da consciência.
Vyasa, o maior comentador dos Yoga Sutras na antiguidade, diz que “Yoga é samadhi”, ou seja, o estado de Yoga é o estado de iluminação. Conclui-se então que para atingir o samadhi deve haver o controle e não identificação com os padrões da consciência para transcende-la, sendo que aqui inclui buddhi, ahamkara e manas, isto é, o intelecto, o ego e a mente. Alcançar esse estado é a meta proposta pelo sistema colocado por Patañjali, para isso, foi denominado Ashtanga Yoga o método dividido em oito partes que constam um grupo de técnicas a serem seguidas pelo yogi. São elas:
Conforme analisado anteriormente, o Samkhya aceita a dualidade original, de Purusha e Prakriti, o Ser e a Natureza, e não reconhece existir um Criador. Prakriti pode ser qualificada pelos três gunas (filamentos): rajas, tamas e sattwa. Para Patañjali, o maior bem do yogi está em se separar dos ciclos da Natureza (prakriti) e identificar-se com o Si mesmo. O que também é buscado pelo Samkhya.
Por volta do século IV d.C., iniciou-se um movimento filosófico pertencente ao hinduísmo denominado Tantra, o qual influenciou, em pouco tempo, a filosofia, a literatura, a moral e o ritual na Índia. No começo, o tantrismo se desenvolveu nas províncias mediocremente hinduizadas, com raízes aborígenes, e através dele muitos elementos estrangeiros adentraram no hinduísmo, prolongando dessa forma o processo de hinduização começado nos tempos pós-védicos.
Há diferentes linhas de tantrismo. O chamado tantrismo da mão direita ou branco, como o Dakshinachara, se opõe ao Vámachara, da mão esquerda ou negro. Este se caracteriza pelos rituais de transgressão, como o pañchamakára, no qual o praticante utiliza a ingestão de bebidas embriagantes, carnes e o coito ritual como meios de chegar à sacralidade.
O Tantra tem como visão os opostos que se complementam, como Shiva e Shakti. Shiva é o princípio imutável, inabalável e eterno, nem ativo nem criador. Sua manifestação é Shakti. Shakti é Prakriti, a energia criadora, que provoca a manifestação e sustenta o Universo e todos os seres. Pela primeira vez é adquirido um culto à Natureza e à feminilidade. Toda mulher torna-se a encarnação de Shakti. Filosoficamente, a redescoberta da Deusa está ligada à condição carnal do espírito no kali yuga. A carne, o cosmos vivo e o tempo são os três elementos do Tantra. A finalidade da prática do tantra é reunir os dois princípios polares no praticante.
Uma prática tântrica denominada Maithuna é feita com a finalidade de atingir a libertação através da união sexual tântrica, o que difere de orgia ou pornografia, como ainda é confundido durante muitos anos através de pessoas que querem disseminar o Tantra como um método para saciar os apetites sexuais, ao invés de conte-los. Neste ritual, através do prazer, é revelada a dimensão divinal da natureza humana, para atingir o samadhi.
No século IX-XII, através do Tantra, o corpo humano adquiriu uma maior importância na história na Índia, como instrumento para a transcendência. Isso ocorreu com o surgimento do Hatha Yoga. O corpo deixou de ser uma fonte de sofrimento e passou a ser um meio para despertar a kundalini através de esforço físico extremo. Através da importância à prática de ásanas, pranayamas e shat karma.
Gorakshanatha foi o criador mítico do Hatha Yoga, ele viveu por volta do século XII. Foi o autor de um tratado desaparecido chamado Hathayoga, e do texto Goraksha Sataka, o qual explica a palavra hatha, que significa: ha = sol e tha = lua.
Os principais livros sobre Hatha Yoga são: Hatha Yoga Pradipika, que possui 15 ásanas, Gheranda Samhita, com 32 ásanas, e Shiva Samhita, com 84 ásanas. Grandes são as influências budistas nesses textos. A física e a fisiologia passaram a interessar muito os autores.
No Hatha Yoga também são importantes as purificações preliminares. Dentre os poderes dos yogis tem bastante importância o controle da respiração e dos batimentos cardíacos.
Já no corpo sutil, mas ainda ligado com o corpo físico, estão as nadis e os chakras. Nas nadis circula a energia vital e nos chakras, a energia cósmica. Ida, pingala e sushumna são as mais importantes nadis para as técnicas do Yoga. Ida é Shakti, e no tantrismo hindu e budista representa o Sol. Pingala é Purusha, e no tantrismo é a Lua. Sushumna seria o caminho do meio, para alcançar o samadhi.
Os chakras, por sua vez, são formados por seis plexos: muladhara, na base da coluna vertebral; svadhisthana, na base do órgão genital; manipura, na altura do umbigo; anahata, no coração; vishuddha, na garganta; e ajña, entre as sobrancelhas. E o sahasrara chackra, situado no topo da cabeça.
Através dos chakras, mediante o Hatha Yoga, há a ascensão da kundalini, produzida por um calor semelhante ao do fogo, que é representada por uma serpente adormecida, enrolada num lingam na parte baixa do corpo. Com essa ocorrência, fica clara a afirmação de que Yoga é samadhi.
A abordagem que foi feita nesse trabalho relata superficialmente todos os aspectos que englobam a história do Yoga no tempo, completamente ligada com a história da evolução da Índia, e mostra que esta contribuiu muito para toda a humanidade. Não tendo como foco um aprofundamento em qualquer fase, apontei em cada tópico os momentos mais marcantes do crescimento do Yoga no tempo. É importante mencionar que todos os aspectos do Yoga são sustentados até a atualidade, sendo que cada método mantém sua tradição conforme o seu enfoque. Conclui-se então que, o Yoga, por ser um darshana, é uma filosofia que busca com suas técnicas favorecer meios para que o praticante, através do autoconhecimento, encontre o caminho da verdade e da felicidade, e por fim a libertação.
Texto: Rosangela Castellari
Esse artigo é voltado para as praticantes do Ashtanga Yoga com uma gravidez normal. Quem é relativamente novo na prática de Ashtanga Yoga, deverá procurar se matricular em uma aula suave de yoga pré-natal ou deverá praticar sob a supervisão de um professor de Ashtanga Yoga qualificado que tenha experiência com gravidez. As informações presentes nesse artigo são baseadas a princípio na minha própria experiência com a gravidez; dessa maneira, esse artigo poderá revelar mais ou menos informações que se aplicam a você. Eu ainda incluí informações sobre gravidez do livro Yoga Mala escrito por Sri K. Pattabhi Jois, que é meu guru e que me aconselhou após um aborto ocorrido durante minha primeira gravidez. Seguindo os seus conselhos, eu continuei minha prática de uma maneira mais atenciosa e equilibrada, e tive uma segunda gravidez bem-sucedida.
A praticante grávida de Ashtanga Yoga deve cuidar da nova vida que cresce dentro dela enquanto prepara o seu corpo para a chegada do bebê e na sua recuperação pós-parto. A prática do Ashtanga Yoga durante a gravidez deverá ser modificada para acomodar o bebê em crescimento e proteger a placenta. Se você sentir câimbras, se houver sangramento ou a interrupção de movimentos do feto, pare imediatamente de praticar e fale com seu médico. Sempre pratique como se a sua barriga (bebê) fosse maior do que ela atualmente é. Ajuste sua prática para um menor nível e intensidade do que costuma fazer antes da gravidez. Esse artigo é escrito por uma praticante grávida de Ashtanga Yoga, que pratica regularmente a Primeira Série. Se sua prática é mais avançada, você deve modificá-la de acordo com os princípios básicos redigidos aqui.
Muitas vezes no início da gravidez, a premissa “escute o seu corpo” tem menor significado, pois ele ainda está muito acostumado com o estado condicionado de não grávida. O seu corpo não começa a falar o que realmente quer antes do quarto mês ou mais. O objetivo deste artigo é ajudar as praticantes experientes de Ashtanga Yoga a minimizar os riscos de uma prática rigorosa durante a gestação e permitir que elas se beneficiem da prática durante e após a gravidez.
A decisão de praticar Yoga durante o primeiro trimestre é individual. Já que este artigo trata da prática de Ashtanga Yoga, deve ser enfatizado que Sri K. Pattabhi Jois aconselha as mulheres a não praticar o Ashtanga Yoga de maneira alguma durante o primeiro trimestre. Este conselho é dado principalmente se já houve histórico de aborto no passado ou quando existe alto fator de risco. Já que geralmente não se sabe, até o segundo semestre ou mais, se a gravidez é de risco, é aconselhável tomar uma atitude conservadora em relação à prática ao iniciar no primeiro trimestre.
Caso você tenha enjôos pela manhã, é aconselhável aguardar o enjôo terminar (geralmente no 4º mês) antes de retomar a prática regular de Yoga. Caso seu enjôo não seja muito intenso e você se sinta bem para praticar, tente não praticar de estomago vazio. Beba pequenas quantidades de água durante a prática para prevenir desidratação e contrações uterinas. Certifique-se que a sala de prática não esteja muito quente. Não tente fazer o corpo transpirar exageradamente durante sua prática.
Modificar o Vinyasa entre as posturas: não saltando (para frente ou para trás), não fazendo cakrasana (cambalhota para trás) ou rolamentos. Ao invés disso, caminhe lentamente. Se você tem uma estrutura pequena, é recomendável eliminar os movimentos de salto o quanto antes, pois seu útero ficará menos protegido durante o impacto do que alguém com uma estrutura maior.
Ujjayi pranayama: A respiração pode ser feita sem problemas (Yoga Mala – 27), mas esteja consciente da intensidade dos bandhas caso você pratique esporadicamente Ashtanga Yoga (veja abaixo).
Uddiyana bandha (abdômen): Dispense a prática do uddiyana bandha para ajudar seu trabalho de parto. Sua barriga precisa de espaço para crescer. Ativar a contração e o levantamento da musculatura abdominal nesse estágio não é necessário. Às vezes a prática de uddiyana bandha durante a gravidez pode causa náusea.
Mula bandha (esfíncteres): O mula bandha poderá ser executado somente se você conseguir trabalhar com a musculatura próxima ao colo do útero sem causar contrações uterinas. Quando o bebê estiver maior (ex: quinto ou sexto mês) você se sentirá mais confortável ao fazer o mula bandha.
Suryanamaskar A (Saudação ao Sol A): Nos movimentos de flexão à frente mantenha o peito a pelo menos 80 - 85 graus do chão. Coloque as mãos em frente aos pés, ao invés de alinhá-las a eles. Caminhe ao invés de saltar. Quando começar a sentir que a barriga precisa de espaço extra, inicie a seqüência com os pés separados na largura dos quadris, em samasthiti, antes de flexionar o tronco à frente.
Suryanamaskar B (Saudação ao Sol B): Quando você estiver caminhando à frente, vindo do adho mukha svanasana (postura do cachorro olhando pra baixo) para entrar no virabhadrasana (postura do guerreiro), permita que o calcanhar do pé detrás fique elevado, mas mantenha o dedão do pé firmemente plantado no chão, para evitar a ativação do uddiyana bandha e a contração do abdômen; suas mãos e braços precisarão carregar mais peso daqui em diante. Depois que o pé da frente estiver estabilizado na posição, coloque o calcanhar no ângulo habitual de 80 - 85 graus em relação ao pé da frente. Mantenha a perna e o pé de trás ativos e firmes em virabhadrasana. Em samasthiti, inicie a seqüência com os pés separados na largura dos quadris, aos seis meses ou quando achar necessário mais espaço.
Evite torções extremas que poderão causar danos repentinos à placenta:
Evite posturas que pressionem o calcanhar no útero (baixo ventre) enquanto estiver flexionando o tronco à frente, de pé ou sentado:
Evite posturas sobre o abdômen ou que podem comprimir o abdômen:
Nas flexões à frente em geral (de pé ou sentada):
Posição das mãos nas posturas sentadas: Para evitar a compressão da barriga, abandone a tradicional posição da mão segurando o meio do pé. Ao invés disso, segure os dedos ou o dedão do pé, enquanto mantém o pé o mais flexionado possível.
Navasana: Alterne cada vez com um pé no chão, enquanto estende a outra perna. Manter um pé no chão irá ajudar o equilíbrio e irá prevenir a sobrecarga excessiva na lombar (parte baixa da coluna) e na região abdominal.
Badha konasana e posturas em ângulo largo: Os músculos e ligamentos nas áreas da virilha e do sacrilíaco estão mais relaxados durante a gravidez, por isso tome cuidado para não hiper-estender nessas posturas.
Utthita Hasta Padangusthasana: Quando a barriga ficar mais proeminente, movimente a perna pela lateral da barriga, ao invés de elevar pela frente. Trabalhe alongando a perna afastada de você ao invés de flexionar o corpo em direção a ela.
Posturas deitada de costas, em geral: Para evitar a redução do fluxo de sangue no útero, não se mantenha de costas por mais de 03 minutos por vez. Se você sentir dificuldade para respirar, náusea ou tontura enquanto faz as posturas de costas, pare completamente de fazê-las.
Supta padangustasana: Deixe de fazer (Yoga Mala – 101). Essa seqüência de movimentos requer que você permaneça algum tempo deitada de costas e poderá ocasionar uma compressão mais intensa do abdômen quando a perna for levada em direção ao rosto e em seguida ao ser levada ao chão. Se você optar por fazer a postura, não force a perna a ir ao encontro nem do rosto nem do chão. Ao invés disso, foque em levar os calcanhares para longe dos quadris, firmando o interior da coxa e mantendo a perna reta.
Setu bandhasana: Não fazer depois do quarto mês (Yoga Mala 103-104). Essa postura exige o esforço dos músculos abdominais (uddiyana bandha) para estabilizar o formato de ponte desse asana. Existe o risco de torção do pescoço, podendo perder o equilíbrio e cair, devido o peso extra adquirido na gravidez.
Backbends: Na postura do cachorro olhando para cima (Urdhva mukha svanasana), mantenha a barriga solta e monte o arco da coluna com cautela e devagar, se concentrando em manter as mãos bem abertas, firmes no chão, e os braços retos. Se houver alguma tensão excessiva no cachorro olhando para cima, não faça a curvatura completa das costas. A disposição da placenta e o ângulo individual de seu útero poderão influenciar na sua habilidade em fazer as curvaturas completas, por isso, não se preocupe se tiver que desistir de praticar as posturas com curvatura das costas. Se você consegue fazer essas posturas confortavelmente, faça o arco devagar e não tente fazer perfeitamente ou contraindo muito. A barriga não pode se sentir rígida ou desconfortável. Permita que o psoas, os ossos dos quadris e a parte alta das coxas fiquem relaxados. Preste atenção se a região lombar está alongada. Devido o aumento de peso da barriga, a lombar naturalmente permanece tencionada o tempo inteiro para sustentar a parte frontal do corpo, por isso, evite distraidamente também tencioná-la durante as curvaturas da coluna. Contudo, mesmo a mais leve curvatura ajudará a estalar a espinha e aliviar as dores lombares provenientes do aumento de peso na gravidez. Não salte ou se mova rapidamente, pois há um risco de distender os músculos abdominais com esses movimentos. Uma alternativa para a completa curvatura da coluna é a postura modificada da ponte (urdhva dhanurasana).
Posturas Invertidas: Não fazer invertidas sobre a cabeça (Yoga Mala – 116 “Mulheres grávidas não devem praticar esse asana”). Se você optar por fazer a invertida sobre a cabeça e sobre os ombros, tenha certeza que você pode manter o equilíbrio e desenvolver força no pescoço e nos braços para se manter firme com o peso extra, e que você não tem problemas de pressão alta. Para entrar e sair das invertidas, o uddiyana bandha normalmente é ativado, isso poderá causar distensão na região abdominal. Se você sentir distender ou enjôo, enquanto entra ou sai da postura invertida, não continue a praticá-la.
Savasana: Deite na lateral esquerda do corpo na posição fetal para evitar a compressão do fluxo de sangue no útero. Use uma toalha enrolada ou um tapetinho debaixo da sua cabeça para acomodar confortavelmente o pescoço. Você também pode colocar um travesseiro entre as pernas e outro entre os seus braços para deixar sua barriga mais confortável.
Levar em conta tudo o que foi dito anteriormente e mais o que segue abaixo.
Suryanamaskar A e B: Continue colocando as mãos em frente aos pés nos movimentos de flexão para frente, usando as pontas dos dedos, ao invés de tocar as palmas das mãos no chão (no segundo e terceiro vinyasa e similares). Se a barriga começar a ficar muito grande (a partir do oitavo mês), isso irá dificultar dar o passo à frente no suryanamaskar B, sem que se faça muito esforço com os quadris ou com os joelhos. Assim, não faça o suryanamaskar B, substitua pelo suryanamaskar A (total de 10 séries).
Posição das mãos nas posturas sentadas: Ao invés de segurar seus dedões dos pés com ambas as mãos, deslize uma mão pelo punho ou antebraço oposto enquanto continua alongando o peito. Por exemplo, em Janu sirsasana A, com a perna direita dobrada e a perna esquerda estendida, puxe o dedão do pé esquerdo em gancho com sua mão esquerda enquanto, com a mão direita, segura o punho ou o antebraço esquerdo. Essa modificação permite que você mantenha a energia entre mão e pé fluindo nas flexões à frente, enquanto dá suporte para a lombar. Não é necessário o uso de tiras! Você pode simplesmente segurar as laterais das panturrilhas.
Nas flexões à frente em geral (de pé ou sentada): Ajuste a distância entre as pernas na largura dos quadris ou na largura que melhor acomodar a barriga que está crescendo.
Nas últimas seis semanas de gravidez: Não fazer navasana e outras posturas que implique em reclinação (onde os joelhos fiquem mais altos que a pélvis), as quais podem estar trabalhando contra o que foi dito no artigo “Optimal Foetal Positioning” – Horn, Angela. “Get Your Baby Lined Up! Optimal Foetal Positioning.” Home Birth Reference Site. 27 January 2004.
2 April 2004 (www.homebirth.org.uk)
Invertidas (sobre a cabeça e ombros): As posturas invertidas sobre a cabeça e sobre os ombros são muito desencorajadoras neste período, pois poderão afetar adversamente a fluidez do sangue ao bebê, colocar uma pressão desnecessária sobre sua placenta, e aumentar o risco do cordão umbilical ficar em volta do pescoço do bebê. Deve ser considerado que nem todos os bebês são “atléticos” o suficiente para escapar da diminuição da quantidade de espaço no útero; talvez, em mulheres que tiveram várias gestações e o útero é mais espaçoso, deve ser mais fácil para o bebê se movimentar e manter na posição de parto. Nas últimas oito semanas de gravidez, é época de estimular a energia descendente e a posição correta da cabeça do neném (“Optimal Foetal Positioning”) para facilitar o trabalho de parto.
A intuição e o bebê: Se algo não parecer certo ou se o seu bebê der a impressão que não está confortável numa postura, não faça. Toda a gravidez é diferente.
A prática do Ashtanga Yoga antes e durante a gravidez pode aumentar a resistência e a confiança da mulher durante o trabalho de parto e no nascimento. O progresso do trabalho de parto para cada mulher é muito individual e depende de muitas variáveis, incluindo o histórico familiar de parto, a proporção entre o tamanho da cabeça do bebê em relação ao tamanho da pélvis da mulher, a posição do bebê, o tamanho total da dilatação e o encaixe da cabeça do neném durante o trabalho de parto. Ficando saudável pela prática de yoga, é provável que ocorra uma liberação adequada de hormônios necessários para um parto normal. As técnicas de controle da respiração aprendidas no Ashtanga Yoga poderão ajudar um pouco no controle da dor. A força desenvolvida com a prática do mula bandha poderá ajudá-la a empurrar o neném para fora de seu corpo com maior eficiência do que se você não tivesse esse condicionamento. Se você optar em fazer anestesia, a prática de yoga ainda pode ajudá-la a perceber as contrações de forma suficiente para que você não dependa exclusivamente de sinais externos durante a chegada do neném. Aconteça o que acontecer, esteja preparada para o inesperado!
Aguarde três meses após dar a luz para prosseguir com sua prática inteira da primeira série de Ashtanga. Esse período de espera irá permitir que seu útero volte ao tamanho natural sem interferência. Já que o Ashtanga Yoga direciona o fluxo de energia para cima, espere até que todo o fluido tenha sido expelido pelo útero para evitar cólicas e sangramento prolongado. Outro motivo para esperar os três meses é que seus músculos, ligamentos e articulações ainda estão soltos pela gravidez e parto, deixando você mais propensa a se machucar nesse período pós-parto. Assim que você voltar a praticar, aprofunde os movimentos de flexão a frente muito gradualmente. Quando se tornar confortável, retome a prática do mula bandha para firmar o períneo e para prevenir incontinência. O uddiyana bandha começa a ser feito com facilidade assim que o útero reduzir ao seu tamanho normal, como antes da gravidez.
No caso de aborto, esperar pelo menos um mês antes de retomar a prática de yoga. Embora você sinta a vontade de acabar com os seus sentimentos de sofrimento e perda voltando imediatamente para a prática de yoga, o seu útero precisa de tempo para voltar ao estado de pré-gravidez.
Fontes, Bibliografia:
Livros
Artigos
Praticantes de Ashtanga Yoga e professoras-mães
© 2003-2008 Betty Lai. As informações aqui fornecidas não substituem os conselhos médicos. Última modificação 22 de fevereiro de 2008.
Texto: Betty Lai
Tradução: Rosangela Castellari
Consulta: www.mangalam.com.br / www.ashtanga.com
O foco da viagem a Mysore, cidade localizada no estado de Karnataka, no sul da Índia, é a prática de Ashtanga Vinyasa Yoga. Lá, praticantes de todos os lugares do mundo e de todos os níveis (desde iniciantes a alunos antigos) se reúnem com o intuito de praticar Ashtanga na forma tradicional, como sempre foi ensinado pelo Guruji (forma carinhosa como Sri K. Pattabhi Jois é chamado por seus alunos).
Voltar à Mysore é mágico, parece que lá o tempo não passa. Após um ano tudo está da mesma forma, encontro pessoas que conheci no ano passado, os mesmos restaurantes, lojas e atendentes, motoristas de ricksha, as comidas apimentadas, cheiros, clima... Parece um constante “déjà vu”. A grande diferença é que agora, na segunda viagem, pude me sentir em casa, muito mais segura e despreocupada. A maior lição que tive ano passado, após viajar sozinha, dois meses em Mysore e um mês em Rishikesh, é que, por mais difícil, complicada ou bizarra que seja a situação, tudo tem uma solução, mesmo que diferente do que desejamos.
A sensação com relação ao tempo é estranha, todos os dias são bastante parecidos, então sempre me questionava qual o dia da semana e do mês. O que nos situa é: dias de lua cheia ou nova, que não praticamos, ou dias de led class, as aulas conduzidas, às sextas-feiras e domingos.
O único pré-requisito antes de ir praticar no shala é preencher e enviar uma carta (que está no site www.kpjayi.org) com os dados pessoais, no mínimo dois meses de antecedência.
Ao chegar a Mysore todos os alunos vão fazer a inscrição, e preenchemos um formulário idêntico ao que enviamos por correio. Nesse momento ficamos sabendo o horário de prática. O meu no 1º mês foi às 7h, e no 2º mês, 6h. Sharath, neto do Guruji, inicia as aulas diariamente às 4h30 da manhã, e sua mãe Saraswathi o ajuda o tempo todo.
Esse ano as aulas começaram um pouco diferente, toda a primeira semana de janeiro foi led class da primeira série, aula conduzida pelo Sharath em que todos os alunos fazem a prática exatamente no mesmo ritmo, de acordo com sua contagem de vinyasas (conexão entre respiração e movimento). No início achei que seria muito cansativo, mas como eu já estava muito cansada por causa da viagem, fuso e sono atrasado, foi bom.
Consegui logo entrar no ritmo, a prática guiada me ajudou a concentrar melhor e pratiquei com muita entrega, doação e agradecimento. A felicidade de estar lá é tão grande que de repente reconheci nesta viagem uma força interna que desconheço no meu dia-a-dia em São Paulo.
Num dia de descanso fiz um passeio a um lugar sagrado, chamado Melukote, a 60km de Mysore. No topo de uma montanha, com uma vista linda, está o Narasimha Temple. Para chegar lá, eu e minhas duas amigas subimos descalças uma escadaria enorme de pedra. Fomos a atração do lugar, chamamos mais atenção do que todos os macacos, bodes e vacas que estavam lá. Já que éramos as únicas ocidentais, famílias de indianos paravam para conversar e tirar fotos.
Além da prática todas as manhãs e conferências aos domingos, temos o dia livre para estudar, descansar, fazer curso de chanting, yoga sutra ou sânscrito no shala, ou senão ficar relaxando na piscina. Fiz um curso de Thai Massagem Tradicional com um professor que vive em Mysore há oito anos. Com certeza foi o curso mais exigente e puxado que já fiz num espaço tão curto de tempo, dez dias muito intensos e cansativos, mas aprendi muito.
Numa viagem como essa temos tempo de sobra para nos auto-observar, assim, é recomendável fazer um diário de sadhana, escrever num caderninho seu dia-a-dia, as dificuldades, idéias, pensamentos ou o que vier à mente.
Percebi nesse tempo na Índia que meu corpo passou por algumas mudanças, minha mente está cada vez mais observadora e mesmo com as dificuldades as práticas foram ótimas. Tive momentos de tristeza, mas os momentos de felicidade são incontáveis. Pessoas e situações especiais passaram e acrescentaram muito na minha vida, muito além da prática de Ashtanga no tapetinho, praticamos o “yoga do riso” todos os dias.
Texto de Rosangela Castellari, publicado no site: www.eyoga.uol.com.br
Historicamente, não se sabe exatamente o ano que Patañjali viveu, mas foi aproximadamente entre 500 e 200 A.C., e ele costumava escrever sobre medicina, gramática e Yoga. Os Yoga Sutras, ou linhas sobre o Yoga, foram compilados por Patañjali em 196 aforismos, que tratam de todos os aspectos da vida, como um código de conduta que nos leva ao autoconhecimento. Lá, são descritos os meios de superar as aflições do corpo e flutuações da mente, que são os obstáculos para o desenvolvimento espiritual.
O livro é dividido em quatro padas, ou capítulos:
No capítulo I, aforismo 2, está a definição de Yoga: “yogah cittavritti nirodhah”, que significa: Yoga é o controle das flutuações da mente, isto é, manter a mente num estado inabalável em situações diversas, como dificuldades, conquistas, tristeza ou felicidade. Após definir o Yoga, Patañjali explica como atingi-lo, através de alguns métodos.
O Ashtanga Yoga, que são as oito partes que constituem a prática do Yoga, é revelado no capítulo II, aforismo 29:
Nos Sutras seguintes cada membro do Yoga é explicado detalhadamente. Todos são interligados, isso quer dizer que a prática de um membro sustenta o outro.
- Yama pode significar abstenção ou autocontrole, tem relação com nossas atitudes exteriores do dia-a-dia, isto é, a forma com que nos relacionamos com todos os seres e as atitudes que temos perante o mundo. São os valores universais, aplicados em qualquer lugar. São divididos em cinco:
Ahimsa: não violência, em palavras, pensamentos e ações; não causar dano a ninguém. Quando tal atitude ocorre, não há espaço para hostilidade. Ahimsa deve ser uma atitude verdadeira e natural, e isso ocorre com a mudança de conduta do praticante, respeitando todos os seres humanos, animais e vegetais, inclusive a si próprio, em todas e quaisquer circunstâncias, e eliminando o ódio e negatividade de suas ações, bem como de seus pensamentos.
Satya: verdade; ser sincero e honesto; pensamentos e palavras em conformidade com as ações. Sri Ramakrishna costumava dizer que a verdadeira espiritualidade consiste em “fazer do coração e lábios o mesmo”. A prática de satya e ahimsa estão sempre ligadas. Contudo, dizer a verdade de um fato a alguém pode ser cruel, pode machucar. Então, é importante usar o bom-senso e tomar cuidado com o que é dito. Em algumas ocasiões, é preferível manter o silêncio a dizer uma verdade severa.
Asteya: não roubar, nem em ações ou em pensamentos. Não se apropriar do que não lhe pertence significa falta de desejo, de cobiça, pelas posses de outrem.
Brahmacharya: continência, ou viver com Deus. Alguns interpretam como celibato. A energia sexual é uma das maiores expressões da força vital, é bastante poderosa, assim, é necessário o seu controle e canalização. Algumas pessoas, dedicadas ao ensino espiritual, optam pelo celibato como um canal de retenção da energia vital. Para outros, não significa uma renúncia a atividade sexual, e sim uma boa conduta com relação ao parceiro, usando a energia sexual de uma forma positiva, sem banalização. Há ainda o entendimento de que brahmacharya significa união com Deus, viver no caminho divino em todos os momentos.
Aparigraha: falta de ganância; desapego; não cobiça com relação a posses, bem materiais e também situações, como querer muito uma postura difícil, ir além do próprio limite, conquistar algo ou alguém, etc. Aparigraha nos ensina sobre a impermanência, em que sempre queremos mais quando algo é conseguido. Dizem que o ser humano “é eternamente insatisfeito”, tal frase pode ser entendida em uma palavra: cobiça. Quando se consegue viver na ausência de cobiça, entende-se a realidade da existência através da retirada do sentimento de “meu”, “seu”, que chamamos de posse. Dessa forma, a pessoa se livra da sensação de escassez, ou falta de algo.
- Niyama são observâncias individuais, disciplinas que cada pessoa faz consigo mesma. São elas:
Saucha: purificação externa e interna (ex.: banho, prática de asana e pranayama). O corpo é o instrumento de busca do conhecimento espiritual. Com a limpeza do corpo e da mente, podemos purificar nossos pensamentos, o que nos leva a não julgarmos e agirmos com mais clareza, objetividade e compaixão.
Santosha: contentamento. Através do contentamento alcança-se a suprema felicidade. Santosha não trata da felicidade passageira, não significa satisfação de um desejo imediato, pois este sempre leva ao próximo, então o momento feliz sempre acaba terminando em sofrimento. Santosha mostra que a felicidade só depende de nós, não de coisas externas. Quando vemos a felicidade em todos os momentos, mesmo difíceis, estamos praticando Santosha.
Tapas: autodisciplina do corpo e órgãos dos sentidos; devoção. A disciplina, através do esforço, é um caminho para o autoconhecimento. Com tapas, as impurezas do corpo e sentidos são removidas, e estes se tornam purificados. A determinação é importante ao se praticar tapas. Aqui, não significa que o praticante, ao executar uma postura, deve ir além do seu limite para fazer cada vez melhor, pois assim pode se machucar durante a prática e se frustrar. Nada em excesso é bom. Tapas é esforçar-se com prudência e dedicação, sem focar nos resultados da ação.
Svadyaya: estudo de si; estudo das escrituras. A prática regular de Yoga é o auto-estudo do praticante. A prática diária é o caminho para o conhecimento dos hábitos, tendências, gostos, da verdadeira natureza do ser.
Ishvara pranidhana: entrega a Deus. Com a entrega do resultado das ações ao Divino, alcança-se o Samadhi, a realização. Se a prática de Yoga é feita com devoção, existe entrega, e assim não há obrigação, e sim uma força interior muito grande, sem pensar em qualquer resultado ou desejo em atingir algo maior.
- Asana é uma postura firme e confortável. Esta é a definição de Patañjali no Sutra II, 46 (“sthira sukham asanam”). Para se obter a firmeza no asana, o praticante deve ter um total controle sobre o corpo, mantê-lo estável e sem desconforto. Somente se alcança uma postura confortável após muitos anos de prática, com constância e devoção. Através da prática de asana o praticante aos poucos atinge os outros membros do Yoga, como os Yamas e Niyamas.
Devido ao fato do corpo ser o nosso maior instrumento que podemos trabalhar diariamente, mudando sua estrutura, postura (física e também diante da vida) e padrões (samskaras), sutilmente também vamos alcançando/acessando novos níveis de consciência, quando pode ser atingido um estado meditativo. A união do esforço, concentração e equilíbrio no asana nos força a viver intensamente o momento presente, fato difícil nos dias de hoje.
O corpo é o templo da alma, então este deve se manter saudável, limpo e puro através da prática de asana, que é a ponte que une corpo e mente, e mente com a alma. Quando ocorre essa união, não há mais dualidades.
- Pranayama é o controle do alento vital; a regulação da respiração. Patañjali afirma que o quarto passo só deve ser praticado quando atingida a perfeição no asana.
Prana = força
Ayama = ascensão, expansão, extensão
Pranayama é a expansão da força vital através do controle da respiração. É constituído de três formas: inspiração, expiração e retenção, que são reguladas através da capacidade pulmonar de cada praticante.
Pranayama é um instrumento para manter a mente estável e encaminhá-la para o caminho da concentração.
- Pratyahara significa controle dos sentidos. Com a prática dos quatro membros anteriores (Yama, Niyama, Asana e Pranayama) a mente se torna apta para a meditação. Então, pratyahara é o resultado, a conseqüência dessa prática, que prepara o praticante para os próximos três passos. Em pratyahara os sentidos estão voltados para dentro, é o controle dos órgãos dos sentidos e da mente.
- Dharana - concentração da mente em um só ponto; foco; atenção.
A prática de dharana consiste em manter a mente atenta, em um estado inabalável de atenção em um só ponto. No Yoga Sutra são descritos vários métodos de concentração, que podem ser feitos pelo praticante preparado, como por exemplo, manter o foco somente na respiração.
- Dhyana significa meditação; estabilidade na concentração (dharana). Após o praticante alcançar dharana, manter a concentração, com estabilidade atinge-se dhyana, um estado permanente de meditação.
- Samadhi - estado constante de contemplação, atingido através da prática dos demais membros do Yoga. União entre sujeito e objeto de meditação.
A prática contínua destes três últimos passos (Dharana, Dhyana e Samadhi) sobre um só objeto é chamada de Samyama.
Texto: Rosangela Castellari
Bibliografia:
Yoga Mala - Sri K. Pattabhi Jois - North Point Press, 2002
Light on the Yoga Sutras of Patañjali - BKS Iyengar - HarperCollins Publishers India, 1993
Patanjali Yoga Sutras - Swami Prabhavananda - Sri Ramakrishna Math, Mylapore
Os Sutras do Yoga de Patanjali - Sri Swami Satchidananda - Gráfica e Editora Del Rey Ltda, 2000
O Yama e Niyama do Yoga Sutra de Patañjali - Matthew Vollmer
The Shambhala Encyclopedia of Yoga - Georg Feurstein - Shambhala Publications, Inc., 1997
Proveniente do Tantra, o Hatha Yoga tem como objetivo a realização do si mesmo através do corpo físico. A palavra Hatha é formada por duas palavras sânscritas, Ha, que significa sol, e Tha, que significa lua. Hatha é a junção dos dois astros, a união consciente da dualidade básica do homem: Espírito-matéria. Seu objetivo é despertar a Kundalini, energia feminina da criação.
Inicialmente, o praticante de Hatha Yoga busca o fortalecimento do corpo físico, obtendo um vajra deha (corpo de diamante), preparando-o assim para realizações superiores. Através de práticas de shat karma (purificações), obtém-se a limpeza dos canais de energia sutil, pelos quais circula o prana (energia vital). Com a prática de asanas (posturas), alcança-se o controle do corpo e concentração. Por meio dos pranayamas, consegue-se o controle da energia vital através da respiração.
Após a conquista do domínio sobre o prana, o praticante torna-se apto a seguir em práticas mais avançadas, para finalmente obter, através da meditação, o controle da mente, o que o conduzirá à auto-realização.
O praticante deve ter cuidado para não se tornar um idólatra do corpo, narcisista, desviando-se assim da meta desejada por um yogui autêntico. Diversos mestres indicam a prática de Karma Yoga (yoga da ação) como forma de ajudar o praticante de Hatha Yoga a se manter no caminho da auto-realização.
"Sem dúvida, a mente é inquieta e difícil de dominar, mas pode ser controlada, ó filho de Kunti [Arjuna], através da prática constante e do desapego".
"Como dois pássaros dourados pousados no mesmo galho, intimamente amigos, o ego e a Consciência habitam o mesmo corpo. O primeiro ingere os frutos doces e azedos da árvore da vida; o segundo tudo vê, em seu distanciamento".
"O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo. O que for o teu desejo, assim será tua vontade. O que for a tua vontade, assim serão teus atos. O que forem teus atos, assim será teu destino".